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Anseio

 

Sei de seus esforços para me ter por perto.

Pois alinha mapas pra me encontrar depressa.

 

Da Série Depoemetos



Escrito por Anderson Ribeiro às 20h21
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Aspone

 

Todos os dias era a mesma coisa. Chegava ao trabalho e sentava diante de seu PC. Para ele não importava a configuração. Se podia ver vídeo sem interrupções, baixar músicas e outras coisas da internet. Para ele era irrelevante. Era quase um analfabeto digital. O que sabia era suficiente para deixar seu trabalho em dia e isso já bastava. Sabia cuidar dos e-mails institucionais e compartilhava, com os poucos amigos reais, piadinhas e PowerPoint com mensagens fabricadas de que o mundo é lindo e coisas correlatas em seu e-mail particular. Sim, criou um para não encher a caixa de mensagens de seu trabalho. Sabia muito bem separar essas questões. Isso já o deixava bastante confortável para não ficar excluído de seu próprio trabalho que já carregava há quase 40 anos, sempre como um exemplo de conduta. Já passava do tempo de se aposentar, mas insistia em continuar na labuta, não que não estivesse cansado, mas para poder não perder algumas gratificações que recebia porque ainda estava em atividade.

 

Exímio datilógrafo, não demorou em adaptar-se ao computador e destacar-se no ofício de digitar... Memorandos, ofícios, requerimentos e tantos outros documentos oficiais que eram seu motivo de orgulho. Olha só como se faz um documento! Gabava-se sempre do curso de textos administrativos que fez no início dos anos 90 e citava as mudanças da estética textual corporativa. Olha só, não se usa mais recuos, agora se usam blocos para dividir os parágrafos. Fica muito mais organizado! A história se repetia toda hora que digitava um documento novo.

 

O mundo de Arivaldo, esse era seu nome, caiu de vez quando tais documentos foram perdendo sentido de existir fisicamente. A repartição entrou definitivamente na era da tecnologia e depois de muitos anos a direção havia enfim aprovado a instalação da intranet. Ari, como era chamado, perdeu todo o encanto com as laudas que digitava e enviava automaticamente com desprezo. Já não havia mais prova de seu labor e dedicação, não havia mais estética, só informação, eram textos sem delongas, sem frases de efeitos lisonjeiros e fechamentos demasiadamente cordiais. No mundo digital e veloz não há espaço para ‘enfeites’, tudo é rasteiro e direto. Nessa era, as palavras não precisam ser escritas toda, basta que a mensagem seja entendida. Não se pode perder tempo para 'e-screver' palavras completas. Isso incomodava Ari que agora enviava documentos bem sucintos e ‘sem vida’.

 

Fulano,

Conforme doc anexo solicito providência imediata.

Aguardo resposta.

 

Fulano de Tal

Gerente Administrativo

 

A assinatura já vem automaticamente e nada mais precisa ter espaço e forma. Providência tem acento ou não? Isso nem importa na comunicação interna, mas pra piorar a situação de Ari, até o português, língua pátria que igualmente se orgulhava por dominar, já não era mais a mesma. O acordo ortográfico finalmente foi oficializado e isso o colocava no mesmo nível que os outros, aliás, bem abaixo. Ari não tinha mais o mesmo pique de quando ingressou no serviço público e novas pessoas, mas rápidas e preparadas para a realidade que a repartição vive no momento, entraram por concurso. Agora só lhe restavam os anos de trabalho que rendia muitas histórias. Quando entrei aqui não tinha nada disso. A gente fazia na máquina de datilografia. Hoje é fácil! ninguém precisa caminhar essa empresa toda pra entregar documentos e coisa e tal... Realmente esse era seu consolo, mas seus colegas de trabalho não o levavam mais a sério, as histórias ficaram repetidas e sempre alguém mais atirado completava a frase que ele iria dizer e isso o deixava muito mais triste.

 

Além do mais, com a implantação da intranet, seus serviços de digitador também ficaram obsoletos. Ari já não possui computador pessoal, foi disponibilizado para o setor como um todo. Agora, quando chega ao trabalho, senta-se à mesa e atende feito um mero recepcionista quem vai aparecendo para saber de informações. É aqui os Recursos Humanos? Alguém pergunta. Não, não senhor. Os Recursos Humanos da nossa instituição fica no final do corredor a direta. Responde com muita educação, sentindo-se útil. Pronto. Ari volta a sua mesa e espera o tempo passar. Arruma o porta-retrato com a foto da família que está fora do lugar, ajeita uma espécie de totem em que se identifica com seu nome e cargo. O único que ainda usa esse tipo de objeto decorativo. Dizem os mais novos que era muito brega e servia só pra dizer que era importante. Acho que eles têm razão. Lembro de quando chegava numa dessas repartições e tinha essas identificações... Davam poder; um nome; um cargo público; um emprego e status. Ficava imaginando quando teria um emprego também, não necessariamente para ter um totem como aquele.

 

A verdade era que Ari já não tinha muita paciência na sua repartição por se sentir ultrapassado, mesmo que diante dos colegas de setor, mostrasse ímpeto, soberba. Mas todos já sabiam que era só pra poder se sentir importante, era pura fantasia. Os colegas respeitavam, mas também não perdiam a oportunidade de fazer uma piadinha com ele. O que o impedia de pedir aposentadoria eram as gratificações que ganhou com tanto esforço. Ele nem percebia que isso ia deixando-o mais amargo, ranzinza e que a gratificação já estava se transformando numa despesa e não em extra. Pois acordar cedo para ir a um lugar em que tinha que ficar cumprindo horário, perdendo hora do almoço, tornando-se sedentário, deixava-o mais depressivo e ele não notava. Começou a tomar remédios para pressão, insônia, dores nas articulações e a entregar mais frequentemente atestados médicos para poder cuidar de uma bronquite ocasionada pelo ar condicionado cada vez mais forte por causa das máquinas.

 

Os anos foram passando e a ociosidade de Ari já incomodava os chefes, mas esses não tinham coragem de aposentá-lo, poderiam piorar a depressão que já estava irreversível. Concediam-lhe folga, mas Ari ia trabalhar para mostrar que ainda era capaz. Tolo, esse Ari, ninguém engana o tempo! E quanto mais se passavam os dias, mais problemas de saúde iam aparecendo. Lombalgia, bico de papagaio, artrose, gastrite crônica, teimosia crônica... Esquecimentos recentes, lembranças antigas, óculos com lentes mais potentes e sem eficiência...

 

Na segunda-feira Ari não foi ao trabalho, nem na terça, nem na quarta, nem na semana toda. Ah, ele está de férias! Especulou um. Duas, três semanas, um mês e mais uma semana. Mas Ari não apareceu. Pobre Ari! Partiu. E seu sonho de ser notado e evidenciado como um servidor modelo não foi realizado. Como foi tolo esse Ari.



Escrito por Anderson Ribeiro às 17h44
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Tormenta

 

A garoa cai fina, despretensiosa.

E despretensiosa vai inundando meu peito infante.

 

 

Da Série Depoemetos

 

 

 



Escrito por Anderson Ribeiro às 16h39
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Musicaos

 

A cidade sobe e desce.

A cidade vai e vem

E vai e vem sem parar.

Buzinas, motores, suores, cansaços...

Rushhhhhhh...

Flashhhhhh...

A cidade canta sua canção de fim de dia;

E dialoga seus ruídos e sinais;

E apresenta sua dança em sincronia.

Abre, fecha, acende, apaga,

pisca, anda, para, segue,

entra, volta, retorna, contorna,

flui, trava, engarrafa, traga,

sorve, dissolve, esvazia...

A cidade compõe no caos a sua sinfonia .

 



Escrito por Anderson Ribeiro às 09h22
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Depoimento

À AThos Bulcão

 

 Brasília, minha filha!

Assume a conseqüência de seus Athos

 

Da Série Depoemetos

 



Escrito por Anderson Ribeiro às 15h27
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Sentidos

 Mergulhar no fundo de mim

Me agulhar no escuro

Enxergar além das minhas mãos

 

 

Da Série Depoemetos

 



Escrito por Anderson Ribeiro às 11h14
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Bússola

 Passeio pelas asas da cidade

E pouso no Lago Sul sem norte

 

 

Da Série Depoemetos



Escrito por Anderson Ribeiro às 23h51
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Censura

 

Minha vida é cena de cinema

Tela branca

Tarja preta

Da Série Depoemetos

 



Escrito por Anderson Ribeiro às 14h07
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Analgesia

 

Sei de mim quando dói.

Se antibiótico

Me conservo.

 

Da Série Depoemetos



Escrito por Anderson Ribeiro às 16h26
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Calendário

 

Billie Holiday na vitrola

Assim jazz o tempo.

 

Da Série Depoemetos

 



Escrito por Anderson Ribeiro às 14h18
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Pohermeto

 

Onde tens objeto, vejo sons.

O que tens de nítido, vejo tons.

E sendo Deus da música,

Escrevo certo em linhas melódicas.

 

Da Série Depoemetos

 



Escrito por Anderson Ribeiro às 02h25
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Migração

 

Gaivotas brancas voando para o Sul

Lenços acenando para mim que não vôo.

 

Da Série Depoemetos

 



Escrito por Anderson Ribeiro às 20h39
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Depois de Januária

 

Já não corro mais pra ver

Januária na janela

Vou atrás de outra menina

Que tem nome Amaralina

Usa saia aquarela

Blusa rosa-amarela

Eu não posso mais viver

Sem olhar os olhos dela.

 

Ao dobrar aquela esquina

Vou amar Amaralina

Que tem pele tão morena

E olhar que desatina

Ao ouvir a sua voz

Minha aflição então termina

Já não posso mais ficar

Ficar longe, Amaralina.

 

*Obra de Sonia Bacha - SB




Escrito por Anderson Ribeiro às 13h10
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Planalto sem amor, sem carnaval

 

Aqui o cenário não tem expressão,

A dramaturgia foi pra outros palcos.

Pierrot ficou mais triste e nem Arlequim se entusiasmou,

Colombina se perdeu em outras praças;

Saiu por aí, na Sapucaí...

Ou nas ruas de Salvador, Olinda ou Recife.

O olhar da Colombina se voltou pra outros rostos.

Já não enxerga mais seus dois amores

Deixados em Brasília sem alegria.

Encontrou a paz em outros carnavais,

Unindo seus amores em um só, como queria.



Escrito por Anderson Ribeiro às 14h30
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Cosmos

 

Aqui

Cosmopoliestamos

Num vai e vem sem ninguém

Num bate-esbarra em alguém

Que não tem nome nem endereço

 

Aqui

Cosmopoliestamos

Vivendo de olhares e de silêncio

E de pensamentos que quebram o silêncio

Cosmopoeira na órbita do Planalto Central

Eu, planeta

Cosmo-pó-literal



Escrito por Anderson Ribeiro às 16h18
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