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(In)certeza

 

Agora não sei a quantas ando;

Não vigio para não me espantar.

Vou sempre adiante como quem foge do que já viu e não foi bom.

Tenho aversão ao que atrasa o mundo

E por isso, não tenho medo do caminho,

Tenho prazer na distância

E no que posso encontrar no fim da estrada.

 



Escrito por Anderson Ribeiro às 16h14
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Território


Precisei partir para perceber que esse lugar nunca foi meu

E o que habito tampouco será.

Precisei partir para perceber que nesse chão já não me reconheço.

E precisei sentir que meu corpo é meu território,

É onde moro e me cabe e me pertence e me leva e me suporta.

 



Escrito por Anderson Ribeiro às 10h54
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A prova

Bem que tentei fechar as feridas, mas elas insistiam em ficar abertas. Tentei pós, pomadas, comprimidos, antibióticos e nada. Bem que tentei pulverizar o mal que elas deixaram, mas só consegui amenizar a dor com um pouco de paciência e uma boa dose de desejo. Sei que passei minha vida tentando, tentando e tentado, alcancei umas felicidades; uns momentos alegres e os aproveitei e foi bom e foi curtamente eterno e sorri, como quem sempre sorriu a vida inteira.

 



Escrito por Anderson Ribeiro às 20h17
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Tormenta II

 

Estou aflito.

E penso pra onde vou se seguir em frente,

Mesmo querendo entrar a esquerda na próxima esquina.

Até que ponto isso influencia na minha história?

E se tivesse virado à direita...

Onde teria chegado?

Quantos desfechos tem a vida!

E eu, aflito demais, não sei que caminho leva a um lugar seguro no futuro.

 

 

Da Série Depoemetos



Escrito por Anderson Ribeiro às 19h18
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Do tempo que sangra

 

De repente me pego achando que o tempo não passou por mim tão impávido, tão cruel. Mas apesar de vestir algumas roupas que até pouco tempo não cabiam e eram impossíveis de um dia poder entrar nelas, o espelho mostra, às vezes, alguém que não reconheço, que está aquém de mim. As cãs brancas são charme, penso; mas outras no peito que encontro esparsas, imagino, ninguém as nota. Uma pinça para removê-las talvez basta.

Dores, não sinto mais em minhas articulações; o que me faz ter uma certeza de que posso ainda muito mais; e isso é uma esperança inabalável de Ariadna; e feito ela, vou tecendo e alongando meus anos. Assim, não os sinto e vou dando contornos de atualidade e de eternidade a eles. Assim também, mesmo tentando, não consigo olhar pra trás com ar de saudosismo, mas isso vai chegar um dia. Sei apenas; não sinto. Ainda não chegou a hora de contar quantas mulheres passaram por mim, nem mensurar a importância de cada uma delas na minha vida. Sei apenas de quem amei; de quem passou apenas, não me recordo.

Agora me vejo entre livros, Cds e entre uma dose e outra de vodca procurando desesperadamente um porto onde possa me acalmar. Sei que estou longe da verdade, mas não é ela que procuro agora. Eu só quero um pouco de paz, mas sem o descanso profundo da morte. Eu não a quero tão próxima. Essa vai ter que esperar um pouco mais para poder cortar meus pulsos com sua foice afiada e sem piedade.



Escrito por Anderson Ribeiro às 18h28
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Renúncia


A poesia me aproxima de mim

E me distancia do mundo.

Preciso viver os outros.


Da Série Depoemetos



Escrito por Anderson Ribeiro às 22h37
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O quintal musical da tia Isaura



Quem passa pela frente da casa da Tia Isaura, sente-se logo que ali mora uma família de bem com a vida; disposta e que abraça quem por lá chega. Mas pelo aspecto do lugar, um grande terreno cercado por arame farpado e várias fruteiras que nos abrigam do sol, e protege a escada que dá acesso ao alpendre e que nos recebe com aconchego de descanso e liberdade, sensação única de quem mora na grande cidade e encontra paz de campo; Quem passa por lá, nem nota que o povo daquele lugar gosta de celebrar. Mas percebem que o alpendre abriga também a porta sempre aberta da casa, sempre! Dela pode-se ver a Tia Isaura preparar os quitutes ao lado do Flávio Pacheco. Juntos formam uma dupla que adora empanturrar todos que chegam. Tem sempre amizade, tem sempre carinho, tem sempre amor e, como não poderia deixar de ter, tem sempre gente chegando, comida e bebida gelada pra batalhão.

Guilherme, Tyrone e Romina Alencar são os filhos da Tia Isaura e adoram música, por isso, nas reuniões da pacata casa de alpendre da Tia Isaura que tem em seu quintal limão, laranja e acerola, também tem muito rock. É uma banda que não tem nome, mas tem estilo. É formada pelos irmãos Alencar e por vários amigos músicos, como o Vasco Jones e o Cris que chegam e vão agregando. Quando se percebe há um show de rock acontecendo num palco improvisado bem embaixo das árvores frutíferas do quintal da Tia Isaura. E assim as horas passam e a noite vai pesando nos ombros do horizonte. Nesse momento, a pequena reunião ‘pra rever e juntar os amigos’ já é uma festa sem ingressos. Tudo são camarote vip e open bar e sem hora pra ter fim. Quem teve disposição madrugou.


E pra resumir a história feito música, as coisas aconteceram mais ou menos assim:


♪A festa não pode parar!

Acabou a cerveja
Sai logo pra comprar. ♫

♪A música não pode parar!

Cansou um músico
Entra outro no lugar. ♫

♪Esse é o quintal musical da Tia Isaura

Que em lugar algum do planeta existe igual.
É só lá que uma reunião ‘pra rever e juntar amigos’
Se transforma num grande festival.♫



Escrito por Anderson Ribeiro às 17h51
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Sacrifício


Quero olhar os olhos do Pai

E chutar o saco do papa

E se me chamarem de filho da puta

Direi que sou filho de Deus.

 

Da Série Depoemetos



Escrito por Anderson Ribeiro às 21h35
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Olhos Verdes

 

 

Seus olhos tão verdes

Parecem regar o mar

E mergulho tão fundo

No verde olho mar

Dos seus olhos tão verdes

Que carregam o mar

E mergulho tão fundo

Nos olhos verde-mar

E é tão doce mergulhar

Doce verde mar

Doces verdes olhos

Doce verde amar

Seus olhos tão verdes olhos

Seus olhos tão verdes mar

Seus olhos tão doces de amar...

Alma



Escrito por Anderson Ribeiro às 18h36
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Quando o perigo era do tamanho do nosso imaginário

 

Era época de sorver a experiência alheia. Época em que fazíamos de tudo para nos firmar entre os mais velhos; de provar que éramos capazes de qualquer proeza, de desafiar nossos próprios limites. A competição era boa nessa época, havia honra e leis, e mesmo não escritas, eram sagradas e invioláveis; transgredi-las era tornar-se um traidor, um pulha, um desonesto e por isso incapaz de fazer parte do grupo.

Era tempo de correr na rua, jogar bola, cair, levantar, dar pontapé, levar porrada, cortar o dedão do pé chutando o chão, esconder-se no mato, dar a volta no quarteirão fugindo da ‘gangue’ adversária ou brincando de pega-pega, estátua, amarelinha, baleado, furão, bola de gude, castanha na calha, bafo-bafo e quando perder, pagar com dinheiro de carteiras de cigarro: Hilton, Charme, John Player Special eram as de maior valor, pois eram difíceis de achar. Havia uns mais ricos que os outros, mas ninguém era miserável. Era tempo de fartura e diversão.

Mas nem tudo se passava tão harmonicamente. A união e a felicidade de cada turma incomodavam umas as outras. Ter mais atitude, mais diversidade de brincadeiras e intensidade na hora de brincar era um acinte aos olhos da turma que observava de longe. “Por que lá é mais animado? O que eles fazem de melhor que a gente?” Pronto! Isso era o suficiente para que houvesse um princípio de guerra. E por serem os meninos da outra turma mais fortes e um pouco mais velhos, desafiavam com ar de vitória. Eles sabiam que tínhamos medo, mas mesmo assim, encarávamos, não fugíamos. Afinal, era a nossa diversão que estava em jogo, não podíamos nos intimidar. Essas situações eram para nós perigosíssimas. Eles eram mais velhos, mais altos e mais fortes. Podíamos nos machucar e muito. Alguns nem dormiam direito imaginando como seria o combate; como iríamos fazer para derrotá-los. Na nossa cabeça poderíamos tudo, usar de quaisquer subterfúgios para poder igualar as forças. E assim era feito: pedra miúda, areia, água de esgoto; tudo para espantá-los da nossa rua, da nossa área.

Depois de tudo, mesmo com a vitória garantida, nunca mais baixamos a guarda, pois sabíamos que eles poderiam voltar. Foram derrotados e isso era difícil de engolir. Porém existia um código. Ninguém atacava de surpresa, era contra as regras e derrotada duas vezes, a turma não poderia mais declarar guerra. E sabíamos que mais cedo ou mais tarde eles voltariam e tínhamos de estar preparados. Afinal, pra nós seria a batalha final. Se vencêssemos, estaríamos livres da ameaça deles. Isso nos deixava apreensivos demais. Com certeza, eles viriam muito mais atentos, perder duas vezes pra uma turma de pirralhos, era muita desmoralização. Se antes achávamos que estávamos em perigo, imagina agora com essa nova situação de ameaça? A ordem era pensar em estratégias diversas para tentar combater e vencer o ‘inimigo’. Fazer diferente da primeira vez, que partimos pra cima deles com que tínhamos na mão, no corpo a corpo. Não era possível mais agir assim. Por isso, todos iam pra suas casas pensando em algo diferente para surpreender os garotos da rua de cima.

No outro dia a garotada se reuniu para fazer um apanhado das idéias de cada um. O que cada um pensou para a batalha final, esperava-se que realmente fosse a final. Teve muita coisa absurda, do tipo, se enterrar no chão para surpreendê-los; com a justificativa de: “Vi num filme de guerra; é infalível”... O que ele esquecia é que a rua era calçada e o plano infalível, era impraticável. Mas de algumas igualmente absurdas podiam ser perfeitamente adaptadas. Como: “vamos fazer um ataque aéreo igual aos camicases, soltar bombas sobre eles e expulsá-los daqui de uma vez por todas”. Essa era boa! Sem aviões, claro, poderíamos subir nos telhados das casas e armar uma tocaia pra eles. Ficariam atordoados e botaríamos todos pra correr, algum que escapasse, ficaria cara a cara com os outros meninos escondidos nos becos e também com os que estavam por trás dos muros das casas, prontos para entrarem em cena. Excelente ideia! Estava armada a estratégia de combate contra os meninos da rua de cima.

Durante toda a semana, a turma se encontrava para por em prática o plano. Bombas de areia, de água de esgoto e até alguns fogos de artifício estavam estocando para o grande dia. Intercalavam entre confeccionar o arsenal e ensaiar a estratégia. Tudo tinha que estar perfeito; cada um tinha que estar afinadíssimo, ciente de seu papel, todos importantes para a hora H. Demorou ainda umas semanas para os meninos da rua de cima pedirem a revanche. O que animou e muito a turma, pois assim podiam se preparar ainda mais.

Os fogos de artifício não eram poderosos, mas os atordoaria com certeza. Bombinhas de salão, vulcões, pólvoras que seriam espalhadas pelo chão e seriam acessas assim que se aproximassem para dar um susto, até começar o bombardeio dos telhados. E assim aconteceu. Os meninos da rua de cima subestimaram a turma e foram combater sem nada, achavam que todos estavam nervosos ou morrendo de medo de ter que enfrentá-los novamente. O que eles não entenderam é que aquela poderia ser a batalha final e, portanto, a liberdade; não precisariam mais se preocupar com eles.

A negligência da turma da rua de cima custou muito caro para eles, além de ter perdido o combate, levaram a maior surra. Quando eles avistaram um de nós sozinho e provocando-os, saíram atrás dele. Assim que entraram na rua. Um jogou fogo na pólvora logo às costas deles e, perplexos param, foi quando a frente deles, um outro também jogou fogo na segunda linha de pólvora e os cercou. Foi a vez dos meninos localizados nos telhados dispararem contra eles: primeiro a água podre de esgoto, logo em seguida, as bombas de areia. Os ataquem eram sucessivos e não deram chance aos meninos da rua de cima. Eles ficaram cheios de lama podre e enojados saíram correndo em disparada. Encontraram garotos determinados e altamente organizados para defender sua honra e seu lugar. Tudo saiu como planejado e sem chances de reação para os meninos da rua de cima que não souberam de onde estavam sendo atacados nem com o que. Saíram com os olhos arregalados de tão assustados que ficaram e nunca mais puderam se meter com a turma da rua de baixo. Presenciaram ainda de longe, a gritaria e festa pela vitória sobre os meninos mais velhos, mais fortes e mais altos. Nesse dia a farra e as brincadeiras foram mais animadas e demoraram até o anoitecer. Depois disso, cansados, os heróis da rua de baixo puderam dormir tranquilos e honrados.

 

* Imagem 'Capitães de Areia'

 



Escrito por Anderson Ribeiro às 18h59
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Os Cisnes

 

Eu que sofri por toda a vida

De patinho feio a cisne morto

Agora vou bailar em que lago, em que poço?

 

Da Série Depoemetos



Escrito por Anderson Ribeiro às 18h38
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Tão breve

 

A vida é faca que dói, mas não talha

E mesmo cega atinge a alma

A morte é brisa que sopra e sai

E por ser leve, passa breve e vai

 

E por ser sussurro, não ouve o grito cortante

E por ser silêncio, não teme o muro adiante

E por ser maresia, se esvai no ar distante

E por ser distante se perde no caminho que antes

Era vida dorida e depois serena morte



Escrito por Anderson Ribeiro às 20h14
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Dois Minutos


Dois minutos. Descobri que estou a frente da humanidade em dois minutos. Ouvi na Rádio Nacional FM. Não foi uma notícia, nem tampouco algo direcionado pra mim, mas foi ela quem despertou que estou a dois minutos além dos outros. Antes achava que estava errado, agora percebo que estou certo, os outros estão atrasados em dois minutos. Isso me daria a capacidade de saber as coisas dois minutos antes dos outros. Poderia festejar, pois mesmo estando a frente dois minutos dos carros que atravessam a ponte JK a meu lado, eles chegam ao seus destinos ao mesmo tempo que eu. Dois minutos é tempo suficiente para que eu mude de opinião ou tome uma decisão importante antes de qualquer um. Dois minutos é a diferença entre estar e permanecer. Dois minutos é o tempo de frear ou seguir; de sentir ou desprezar.

Mesmo com essa vantagem minha dispersão é maior que o tempo que tenho a mais e por isso mesmo não consigo perceber determinadas coisas que estão ou não a minha frente ou que poderiam não deixar acontecer. Sou disperso e o tempo que tenho não me vale de nada. Precisava de mais tempo. Não sou tão rápido pra poder mudar alguma tragédia, mesmo que eu faça parte dela. Dispersão ou dislexia? Ainda assim tenho uma vantagem diante dos outros, mesmo que não seja o tempo de que necessito, pois eles não me servem absolutamente de nada. Porque mesmo estando à frente, eu tenho que me encaixar dois minutos antes e isso me deixa na condição de um pseudo-futurista, visionário, vanguardista. Sou eu que tenho que me adaptar ao atraso, ao que já passou; tenho que fechar os olhos ao que está ao meu dispor antes dos outros para não perder a surpresa, para que as coisas aconteçam no mesmo momento deles e o ineditismo seja preservado. Tenho que me conformar e esquecer que tenho dois minutos a frente, assim vivo menos angustiado.



Escrito por Anderson Ribeiro às 21h36
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*O mar de Cleo (parte texto)

 

Era um sábado à noite num bar a beira mar. Pela quantidade de mesas, aquele lugar recebia muita gente. Não que estivesse cheio, mas eram muitas e de muitos modelos e cores. Umas pintadas de verde, outras de vermelho e até sem cor alguma. Mesas, que naquele dia repousavam inertes à espera de alguém; mesas que resistiam aos ventos e à maresia eterna, acompanhadas de cadeiras que não se harmonizavam entre si. As nossas, por exemplo, tinham encostos bem altos e assentos largos. Eram feitas com tábuas grossas e por isso mesmo bastante pesadas. Cadeiras que, por sua incivilidade, contrastavam com a postura que nos obrigavam ao sentar e destoavam da mesa laboriosamente construída sem altivez.

De majestoso mesmo apenas o balcão principal. Talhado em madeira escura, lembrava um altar profano com garrafas de muitos teores, em que bêbados fiéis, devotos de tantos santos, entornavam suas doses, implorando que males não lhes chegassem perto. Pela aparência fosca daquele balcão, percebia-se que já se havia provado muitos dissabores climáticos também, mas que mesmo assim, ainda impunha um ar esplendoroso de datas soberbas; eras em que reinavam brilho e glamour; dias lastros em que lhes concediam ser o adorno principal do salão.

E por não ter mais luz e não ser mais par nos bailes que não acontecem, ficou esquecido. Brilho intenso, presença majestosa mesmo, havia chegado ao recinto. Aquele homem de cabelo em desalinho e grisalho; sem cetro em nenhuma das suas mãos fortes e; sem capa alguma que o cobrisse e acompanhasse, era rei das águas daquele oceano próximo. Velho lobo; marinheiro ancorado em sua cadeira-trono cercada de súditos agradecidos e agraciados. 

Valha-me rei das intempéries! Aquele que anda por diversos elementos! Que recebe pedras e as transformam em pérolas! Bem-aventurado aquele que emana poder das entranhas! Receba uma humilde oferenda de um de seus servos. Externe seu desejo momentâneo que o realizarei sem esforço. Eis-me aqui para isto! Bastava um pedido, um pensamento, um olhar, que a mesa estava servida, ambrosia aos mortais, líquido reservado ao desvencilhamento. 

Enquanto falava ia sorvendo um cigarro e outro, perdiam-se as palavras nos arabescos fantásticos da fumaça, esvaiam-se nela segredos bravios, tão sodômicos e tão pueris... tão fortes... tão densos. Aquele homem de cabelo em desalinho e grisalho parecia dominar o humor do tempo. Um grito rompante de sua boca e de repente um vento veloz vinha do mar; um choro cortante no seu rosto e uma onda algoz derrubava barrancos indefesos. Era sonho e realidade gladiando-se; era tempestade, que tão logo chegou do sul das crenças, sem piedade e corisca; rajando a linha tênue que separa mundos paralelos, como brincadeiras de quintais, jogos de rua, teatros de calçada e pandorgas no céu. 

Maldita seja a claridade que nos prende ao chão! Benditos sejam os embates que nos tornam ser! Malditos os bobos sem corte que vêm em bandos! Eu sei. Aquele homem de cabelo em desalinho e grisalho escreve suas páginas com canetas mágicas; balanceia sua história com pimenta e chocolate; tempera o tempo com ervas finas e conhaque e o saboreia sempre quente como um prato bem flambado. É assim, pois atávico, que esse velho lobo vive de amar e mar... indo e vindo constante e infinito. Assim, feito notas musicais que bailam no ar e se perdem no ouvido do horizonte e rompem as fronteiras do desconhecido. E é mesmo assim, que ele enfrenta o mar agitado para retornar sempre altivo e sábio e debochado.

 

* Texto publicado originalmente em 09.05.2008. Mas retornou porque o momento é de homenagem e força para o Cleomar Brandi

 



Escrito por Anderson Ribeiro às 20h31
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Por que?



O que te fazes sorrir tão desesperadamente?
Alegria fugaz que tomou conta de ti de repente
Ou medo absurdo que te deixou sem chão?

O que te fazes aferir que isso me incomoda?
Tua experiência com o mundo que te cerca
Ou minha cara de desdém como resposta?

O que supostamente te faz pensar que o mal sou eu?
Se és tu que falas entre dentes?
Como podes pensar isso de mim?

Se sou eu o perdido entre tantas palavras?
Se é meu peito rascunho de tantas injúrias
E meu coração mata-borrão de tua alma?



Escrito por Anderson Ribeiro às 18h33
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